Oie,

primeiro gostaria de dizer que fiquei agradavelmente surpresa acerca de seu posicionamento sobre o feminismo. Você é uma mulher em evidência, que influencia milhares de jovens mulheres, e é realmente muito bom tê-la ao nosso lado. Com certeza vai ser importantíssimo para muitas meninas que você efetivamente diga ser feminista.

Mas durante o programa discordei um bocado de algumas coisas que você disse, e como não deu tempo de falar lá, falo aqui, onde não tenho tempo limitado e nem edição.

Quando você disse que também gostava de chegar nos caras e que até já parou o carro algumas vezes, eu te pergunto: você acharia legal se fosse o contrário? Mesmo? Você andando na rua e um desconhecido encosta no carro e fala alguma coisa, qualquer coisa?

Não estou reprimindo seu ímpeto de chegar no broto, longe de mim. Não é nada disso.

O que estou tentando dizer é que não são comportamentos equivalentes.  Um homem dificilmente vai se sentir acuado diante da investida de uma mulher, ou vai se sentir em perigo se um carro com uma gata como você encostar e ela mandar um ô lá em casa. Ele talvez fique tímido, desconcertado, sue frio, mas não vai achar que a integridade física dele possa estar em jogo.

Esse é o conceito da falsa simetria: dizer que os comportamentos se equivalem quando o contexto cultural e social os torna diferentes.

Outra coisa que eu queria conversar com você, mas não deu tempo: você é feminista, luta pela libertação das mulheres, pelo protagonismo feminino, e, como você mesma disse, “por um mundo onde as mulheres possam chegar nos homens”. Eu também e acho muito lindo que alguém com a sua visibilidade traga o assunto à tona.

Mas tem o lance da competição feminina. Eu sei que você está reproduzindo o rolê, mas esse conceito “das invejosas” é algo que passa bem longe do feminismo.

Desde pequenas somos encorajadas a competir umas com as outras. Pra ser mais bonita do que a outra, pra ser mais comportada do que a outra, pra ser melhor do que a outra. Aprendemos que “não dá pra confiar em mulher”. Já ouvi até gente dizendo que a fofoca é algo inerente ao sexo feminino (suspiros muito cansados). Vivemos essa divisão ridícula, a partir da adolescência, das que ~conseguem~ agradar aos homens e as que ficam pra escanteio.

O ideal é que sejamos todas poderosas, sem invejosas.

É um longo caminho, mas quanto antes começarmos a desconstruir a competição feminina, mais rápido chegaremos lá.

E só mais uma coisa que eu estou há tempos pra te dizer, miga, é o seguinte: homem gay também é “homem do sexo masculino”. E lésbica não deixa de ser mulher por conta de sua orientação sexual. Sabe, isso aborrece algumas pessoas, suas fãs, que se sentem diminuídas diante desses conceitos.

No mais, foi um prazer. Espero um dia poder rebolar bastante em um show seu.

tumblr_m3gw48mbqB1qet1tyo1_500Beijoca,

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