Com a virada do milênio a publicidade descobriu a nova pedra fundamental de marketing: ser bonzinho vende. Não que eu defenda a velha publicidade da selva, em que o médico vende cigarro; é claro que é muito melhor você ter uma publicidade pautada por boas causas – um caso clássico é a campanha da Dove, que mesmo sendo uma marca que quer vender sabonete, que quer ganhar muito dinheiro e ser líder de mercado, conseguiu dar um pouco de dignidade para o segmento. Inegavelmente a Dove fez história na propaganda.

O problema é quando o produto ou a marca quer usar uma causa sem qualquer justificativa plausível além de um trocadilho ruim ou simplesmente para tentar entrar na lista das marcas socialmente bacanas. Um exemplo recente foi aquela campanha bizarra e de mau gosto que a Always fez em conjunto com a Safernet, usando a Sabrina Sato. Algum gênio da criação teve a grande ideia de “já que o produto evita vazamento a gente pode falar nessa história de vazar vídeo, não é do caralho?” Bom, o resultado vocês conhecem: a campanha teve que sair do ar. É tão ruim que eu não achei o resultado uma ofensa para as mulheres, foi uma ofensa para inteligência de qualquer ser vivo, incluindo amebas e protozoários.

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Mas quando o público começa a reagir negativamente a essas atitudes “espertonas” da publicidade ao abusar das causas sociais, resta alguma esperança de que os criadores vão parar para pensar um pouquinho que seja antes de fazer uma cagada. Minha esperança foi pro saco hoje. O site Trend Hunter faz uma notinha ELOGIOSA a uma campanha social que a Vodafone (uma marca internacional de celular) está fazendo na Índia. O problema é que o resultado final não é só uma campanha de merda, ela é perigosa. Coloca vidas em riscos. A tal da campanha se chama: “O guarda-chuva da autodefesa”. Agora acompanhem o caminho tortuoso que o único neurônio do saco de merda que criou isso fez no imenso vazio onde deveria existir um cérebro.

  1. O problema: muitas mulheres na Índia vivem sozinhas no interior do país enquanto os maridos vivem nas cidades grandes trabalhando. Esses maridos enviam dinheiro para as mulheres através de um sistema da Vodafone. Essas mulheres são constantemente assaltadas, quando não violentadas e mortas, para coisa ficar ainda mais trágica.
  2. A solução: entregar junto com o dinheiro um guarda-chuva. Nesse guarda-chuva existe alguns desenhos que ENSINAM a mulher como se defender usando o mesmo guarda-chuva, caso encontre um criminoso no caminho para casa. É claro que essa mulher, sem nenhum conhecimento de arte marcial, vai aprender a virar a Lara Croft do guarda-chuva só observando atentamente meia dúzia de desenhos. Os bandidos que ela irá encontrar nunca estarão armados ou irão reagir. E obviamente as campanhas de TV na Índia não são vistas por bandidos, quer dizer, nenhum criminoso vai saber que, quando uma mulher sair da agência com um guarda-chuva da Vodafone é um alvo em potencial,  porque ela também estará saindo com o dinheiro que o marido enviou.

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Para quem achou que é piada, aqui vai a matéria com o vídeo (em inglês), do absurdo. A criação é da Ogilvy India – por coincidência, filial da mesma agência que criou a campanha de Dove. Ironia, né? Mas vamos tentar deixar de lado todos os problemas que vão levar a campanha a um fracasso e quase certamente a uma tragédia e imaginar que sim, há a chance de ser um sucesso. As mulheres vão aprender todos os movimentos de arte marcial, vão usar o guarda-chuva como uma espada de Jedi e aniquilar todos os bandidos que as importunarem. O que a Vodafone quer vender com isso? Que é bacana linchar criminosos no meio da rua? Que a marca ajuda as pessoas a fazerem justiça com as próprias mãos (e um guarda-chuva)? Quer dizer, até um resultado supostamente positivo, é inaceitável.

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Alguém pode defender a atitude dos publicitários: “Ah, pelo menos eles estão fazendo alguma coisa…”. Amiga, às vezes é melhor não fazer nada. Talvez fosse melhor que a marca enviasse dinheiro para apoiar a polícia local. Talvez o problema seja tão endêmico que nem propaganda ou financiamento das forças de segurança resolvam.  Talvez seja preciso forçar o governo a achar uma solução. Eu não conheço esse problema da Índia, eu posso me solidarizar e ficar penalizada com o que está acontecendo. Mas não conheço, não posso chutar uma solução aqui do meu computador. O caso é que certamente quem criou essa solução esdrúxula também não conhece esse problema. Estava lá, dentro da agência, possivelmente por mais horas do que o necessário e aceitável (porque publicitário acha superbacana pagar de workaholic), leu um briefing de uma lauda, talvez tenha feito uma pesquisa no google, no máximo. E daí teve a ideia. Não foi pro interior falar com as mulheres, não parou para pensar por um segundo na consequência do que estava criando. “Que tal um guarda-chuva com desenhos de auto-defesa? Não é do caralho?”. E o caralho dessa ideia de merda foi passando por todas as instâncias até ser produzida.

Só espero que ela saia do ar antes de matar alguém.

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