Esses dias fui conversar com uma amiga que está passando por uma ruptura (muito mais interna que externa, mas que acabou abalando todo o resto da vida dela).

No meio dessa ruptura pessoal ela foi se dando conta que, muitas vezes, era a única “responsável” pelo relacionamento que tinha. E se pegava olhando com inveja pro namorado quando ele conseguia ser profundamente egoísta sem culpa nenhuma.

sozinhaAh, é, eu tou sozinha

Porque, pra maioria de nós, ainda é muito difícil pensar em si sem sentir culpa por ter abandonado o outro. Como se essa fosse nossa vocação e tivéssemos deixado ela de lado, nossa Capela Sistina. E não é como se isso fosse só fruto da nossa cabeça, a maioria das pessoas ainda acredita que temos obrigaçãotalento para cuidar. Cuidar da casa, do homem, dos filhos. Sozinhas. Abnegadamente. Tudo que não é assim segue sendo visto como desleixo, descaso, ser uma mulher pior. Daí vem a nossa culpa ;)

Minha amiga é alguns anos mais jovem que eu e, ouvindo o que ela falava, lembrei da primeira vez que me dei conta disso: quando pensei em ser mãe. Durante muitos anos tive mais amigos homens que mulheres e, chegando em certa idade, a maioria se tornou pai. Nenhum deles precisou abrir mão da própria vida e virar um santo dedicado para ser considerado um bom pai. Muitos são, muitos não. Mas todos seguiram existindo individualmente. Só que a ideia de ser mãe, pra grande maioria das mulheres que eu conhecia, envolvia abdicar de si. Foi aí que dei um ou dez passos pra longe disso tudo.

Mil anos depois, muita coisa mudou e já conheço mães que confrontam abertamente essa ideia de deixar de existir pela maternidade. Apesar das cobranças da família, das escolas, da sociedade. Mas ainda conheço bem poucos homens que o fazem. Ou seja: ser mãe continua sendo um trabalho individual (mesmo quando em dupla).

melhor-odiadaMelhor ser odiada que amada por quem tu não é

O mesmo acontece com os relacionamentos. Não importa o quanto o cara diga ser diferentão e consciente, se ele é incapaz de sentar contigo e conversar para tentar mudar as coisas, rever seus privilégios gerais e se dedicar cotidianamente para equilibrar a balança, o teu relacionamento é um trabalho individual.

Ou seja, nós podemos romper apenas com o nosso lado, que é essa ideia de que mulher não deve confrontar o homem, que sempre temos que ceder e que nossa obrigação é cuidar, mas se o parceiro não acompanhar nem estiver disposto a romper com o que pesa do seu lado, muitas vezes essa tentativa de melhorar acaba nos deixando com a sensação de que trocamos o que tínhamos por algo pior.

Mas só porque raramente nos damos conta que a maioria dos relacionamentos que seguem esse padrão tradicional são profundamente solitários para as mulheres que, assim como a minha amiga, são as únicas responsáveis pela coisa toda.

Quantos relacionamentos solitários vocês já tiveram? Daqueles que o cara acha que DR é um saco, mas não propõe nenhuma outra forma de conciliar ou lidar com as coisas? Daqueles onde a tua vida fica em standby porque a vida dele está em primeiro plano? Daqueles que tu esquece como é receber carinho e incentivo quando as coisas vão mal/bem?

Isso quer dizer que nós, feministas, estragamos os relacionamentos ou que falta gente disposta a pensar na companheira com amor e cuidado e querer quebrar com esse modelo terrível com o qual nós cansamos de nos contentar?

amor-é-complicadoNo final das contas, amor é complicado pra caramba

Conviver é sempre uma dificuldade. Conviver comigo mesma já não é das coisas mais simples, que dirá com outra pessoa. Mas isso me fez pensar em todas as mulheres maravilhosas que conheço e que, tendo entendido que não precisam de um relacionamento para validar sua existência, também dizem que desistiram, que essas coisas não são pra elas. Quantas realmente não querem essa troca de afeto e quantas só cansaram de falar sozinhas e ser as únicas que cedem?

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