Nas últimas semanas, enquanto o Fantástico apresentava uma série sobre países onde as mulheres são tratadas como seres inferiores, duas decisões nos constrangeram a relembrar como somos, sim, um desses países.

As coincidências da vida, né, gente.

Ta lá a maior rede de TV brasileira tentando nos convencer que aqui não está tão ruim (apesar dos dados alarmantes) e dois Tribunais de Justiça usam a culpabilização da vítima para inocentar os criminosos.

O primeiro inocentou um fazendeiro de estupro de vulnerável após ele ser pego em sua caminhonete, em um canavial no interior de SP, com uma criança de 13 anos.

Eu não sou advogada e não entendo muito bem como funciona, mas tudo indica que direitos só existem para alguns de nós, mesmo.

E minha alma morreu um pouco ao saber que o sujeito foi absolvido de crime hediondo por culpa da vítima. Segundo o vossa excelência, as vezes menores aparentam mais idade, especialmente quando se prostituem, usam drogas e bebem. Pobre homem, levado a crer que a criança não era criança.

Sério. Sujeito chegou a dizer exatamente isso: “em tais casos é evidente que não só a aparência física como também a mental desses menores se destoará do comumente notado em pessoas de tenra idade”.

VictimVítima deveria o oposto de culpado

Minha cabecinha fraca de leiga compreende que o senhor desembargador e eu não somos da mesma opinião, pois eu acredito que são, exatamente, as crianças mais vulneráveis que precisam de mais proteção. Não menos.

E provando que não era só uma febre passageira, outro desembargador, agora do TJ de MG, condenou outra mulher sem valor. Neste caso, por ter tido fotos de momentos íntimos seus divulgados por um ex namorado. Para o vossa excelência da vez: “Quem ousa posar daquela forma e naquelas circunstâncias tem um conceito moral diferenciado, liberal”.

Ele ainda argumentou que a mulher tinha consciência do que fazia e sabia o risco ao qual estava se expondo. E deu um discurso sobre como mandar fotos em posições ginecológicas (não sensuais) para um ex-namorado com o qual se relacionou por menos de um ano era clara prova de que, bom, ela era vítima culpada da vez.

Enquanto o mundo se digladia por violações de privacidade, o cara basicamente disse que apenas mulheres de bem tem direito a isso.

Novamente, minha opinião é de leiga, mas como eu vejo, enquanto continuarmos considerando normal e legal culpabilizar a vítima, não vai ter vagão capaz de deter a tsunami de chorume e os crimes de ódio.

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