A ONG Criola, uma organização civil fundada e conduzida por mulheres negras, mapeou 50 comentários racistas direcionados à jornalista Maria Julia Coutinho e, a partir daí, estão sendo espalhados outdoors com as frases de cada autor em suas cidades.

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A ação não expõe os agressores e me parece que essa não-exposição reforça a ideia de que apesar do racismo ser um crime inafiançável, os criminosos sequer são indiciados e quando são (o que é raro) nem pena mínima cumprem.

Eu sou mulher negra, já sofri racismo dentro e fora da internet, e não me sinto alcançada por uma campanha que está espalhando pelo Brasil as frases que nos machucam e adoecem. Precisamos refletir criticamente sobre nossas denúncias, o que fazer e como, para não causarmos maior sofrimento em vez de combater o problema.

Me imagino passando na rua e vendo pessoas ao meu redor lendo e comentando a frase de um racista dirigida a mim uma vez : “Ninguém vai te querer com esse cabelo, bombril machuca.”

Se dói escrever, imagina vê-la em outdoors pelo país.

Esse é um comentário que está no site da campanha:

Acho que existe uma histeria antirracismo no Brasil, mas para falar a verdade gostei da campanha, ela mostra as postagens racistas e deixa cada um tirar suas conclusões se é certo ou não. Com certeza fará as pessoas pensarem”.

E quem irá decidir se o que ela disse é correto ou não? Será por acaso ela mesma? Quem comete racismo não quer refletir sobre o que fez, não são crianças de oito anos. Coloca-las num cantinho para  pensar sobre seus atos não irá reeducá-las.

O racismo no Brasil é estrutural e precisamos ser mais combatentes. De campanhas que não mexem nas estruturas e não questionam privilégios já estamos fartas. Não adianta se revoltar com as ofensas que Maju sofreu julgando que essas são coisas isoladas quando na verdade o racismo é uma realidade para qual muitos fecham os olhos. Não adianta se incomodar com essas ofensas e ser contra cotas, chamar militantes de vitimistas quando apontam racismo.

Quero deixar escurecido o meu respeito às mulheres que solidificam a ONG Criola que seguem na luta combatendo o racismo, sexismo, entre outras pautas.

Meu chamado de atenção não significa que não podemos compreender a crítica da ONG, de uma forma geral, como uma contribuição na luta contra o racismo que nos afeta a todos nós, mulheres e homens negros. Entretanto, os efeitos de certas estratégias nem sempre parecem atingir os objetivos desejados e aí sim cabe uma reflexão.

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