Sim, as mulheres que não gostam de pegar geral podem sofrer uma certa pressão nos seus grupos de amigos. Mas nós sabemos que também rola um tipo de status de pureza associado com esse comportamento, o que ainda faz com que algumas mulheres sejam vistas como melhores que as outras pela grande maioria da sociedade. E só pelo que elas escolhem fazer com a vida pessoal delas.

E isso me incomoda profundamente, porque minha luta é por ser percebida como um ser humano. Ou seja, eu quero o direito de que a expressão da minha sexualidade e das minhas opções pessoais sejam apenas isso: algo pessoal, que não diz respeito a ninguém e nem me tornam melhor ou pior.

Até porque nós sabemos que fazer ou não fazer sexo não define caráter.

Por isso quando, em entrevista para a Vanity Fair, a Rihanna disse que não gostava de sexo casual, eu entendi e até consegui me ver ali. Mas quando comecei a ler os comentários falando que isso fazia dela uma mulher melhor, eu só me senti no colégio, de novo. Ou em lugar pior.

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Eu não vejo a liberdade sexual como algo ultrapassado. Porque é quando tomamos posse do nosso corpo que nos tornamos humanas, ou seja, deixamos de existir por causa ou como adereço do outro. E entendo que, muitas vezes, a gente sinta essa liberdade como uma coisa meio imposta, tipo, nós precisamos pegar geral, senão somos vistas como puritanas que odeiam sexo.

E essa ideia não está dissociada da sociedade onde a gente vive, a sociedade que nos valida pelo que consumimos. O Zizek fala disso quando diz que a diversão se torna um dever ainda maior que obedecer. Nós somos forçados a nos divertir (e consumir) o tempo todo, senão estamos desperdiçando tempo.

Mas não podemos esquecer que socialmente, ou seja, pra grande maioria das pessoas do mundo, com quem ou como uma mulher escolhe fazer sexo ainda determina o valor dela. Como se sexo fosse nossa moeda de troca por respeito. E não é. O respeito deveria ser algo que todas temos direito apenas porque sim. E com quem, como e quando fazemos sexo deveria ser uma escolha pessoal.

E é por isso que prefiro falar de autonomia sexual.

Porque romper com status machista não é só lutar pela conquista imediata que me interessa. É lutar para que todas as mulheres sejam livres para ser. Mais ou menos como a Rihanna disse:

Se eu quisesse fazer, eu faria (sexo casual). Eu vou fazer o que me deixa feliz, o que eu tenho vontade de fazer.

E essa possibilidade de escolher, de estar no controle da própria vida, é uma conquista do feminismo,  da nossa luta por respeito e igualdade. Então a grande ruptura do feminismo em relação a nossa sexualidade para nós, mulheres que vivemos em 2015, pode ser a possibilidade de não pegar ninguém, também. Mas como grupo, a grande ruptura do feminismo continua sendo separar sexo de valor pessoal.

Sexo não torna ninguém melhor ou pior. Relacionamentos não tornam ninguém melhor ou pior. Mas a possibilidade de escolher o que fazemos com nosso corpo sem que isso determine como seremos vistas, essa torna todas nós melhores.

hey

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