Recentemente um portal todo modernete ironizou a Kim Kardashian. O motivo? Ela se colocou como feminista e tem uma bunda. Ironizar mulheres fortes, ironizar feministas, ironizar a Kim Kardashian, enfim, nada disso é novidade (mas como é tonto).

Para questionar a Kim, o site colocou uma foto onde sua bunda aparece em close, seguido da legenda: “Ser feminista é…”. Mas, calma, eu tirei um print (porque obviamente que eles deletaram). Vejam com seus próprios olhos:

catraca-livre

Conforme já falamos aqui uma porção de vezes: não existe nenhuma contradição em ser feminista e ter bunda. Na verdade é apenas esperado que todos os seres humanos (categoria na qual estão as feministas – e os redatores de sites machistinhas) tenham uma bunda. Mas, independente de serem grandes ou pequenas, bundas não pensam e, como tal, não tem orientação político-filosófica.

Então por que usar a bunda de uma mulher (ou qualquer outra parte do corpo) para tentar descreditar sua fala? Por que insinuar que a bunda de uma mulher contradiz sua posição como feminista?

Poderia responder apenas isso:

kim-kardashian

Mas resolvi explicar com uma breve viagem no tempo, relembrando a Marilyn Monroe, pra provar que não existe criatividade nenhuma nas ofensas machistas.

Em 1952 descobriu-se que Monroe havia posado nua para um calendário, anos antes (em 1949). Os figurões do estúdio onde ela trabalhava aconselharam que desmentisse (ou, nesse caso, apenas mentisse).

Eles estavam muito preocupados, diziam: ‘diga que não era você’ e eu respondi: ‘mas era eu’. E eles não gostaram nada disso

Mais ou menos como a Kim fez em Keeping Up With The Kardashians:

kardashian-sexPor que tu te filmou fazendo sexo?

kardashian-sex-tapePorque eu tava com tesão e senti vontade.

Para os empresários da Monroe, assim como para muitos detratores da Kardashian, não faz o menor sentido uma mulher não ter culpa ou vergonha (a famosa sem vergonha) em relação à sua sexualidade.

Pra finalizar a lacração, Monroe escreveria em seu diário, anos depois:

Meu corpo é meu. Todo ele é meu.

Que tipo de bicho é esse que é capaz de questionar os pilares da sociedade machista?

Resistir aos domínios de medo da cultura de estupro, dizer que nossa sexualidade não é doente, a doença está nos olhos dessa cultura, são algumas das tantas coisas que unem essas duas mulheres. Não é a toa que, ao tentar explicar os motivos que tornam Monroe inesquecível, Gloria Steinem tenha escrito algo que é facilmente associado com as Kardashians:

Na verdade a epidemia feminista que se desenrolou menos de uma década depois da morte de Monroe talvez seja a mais nova e poderosa razão para que seu legado continue tão forte. Uma mulher começou a ser honesta em público e, ao descobrir que muitas das nossas experiências eram sociais e não individuais, nós também descobrimos que podemos nos beneficiar mais de permanecer unidas do que de competir e trair umas às outras. Nós nos tornamos menos vítimas em potencial e mais prováveis salvadoras umas das outras.

Mas quando as fotos nuas de Marilyn se transformaram em um escândalo – e parte do escândalo era ela se recusar a desmentir ou se envergonhar por ter pousado nua – Marilyn, assim como Kim, soube converter a atenção em dinheiro. E isso foi ainda pior, porque isso queria dizer que ela estava de posse da sua sexualidade.

MonroeEu sei ser inteligente quando é relevante, mas a maioria dos homens não gosta disso ;)

Isso não quer dizer que nenhuma das duas é perfeita e ilibada (quem é?), mas quer dizer que não sucumbiram à cultura que tenta subjugar a mulher, invadir sua privacidade e lembrá-la, constantemente, que não importa a distância que tenha percorrido ela ainda é só uma mulher e, como tal, não tem direito ao seu corpo e sua sexualidade. Como o idiota do ex namorado tentou fazer com a Kim nessa música ruim e deprimente. Essa sociedade não consegue lidar com mulheres livres e, não podendo fazer mais nada, isola e objetifica.

E é pensando sobre isso que vemos o caminho que nós, mulheres, percorremos (que nem sempre foi acompanhado pelos produtores de conteúdo, diga-se). Monroe, solitária e infeliz com a incapacidade de ser levada a sério como atriz teve um destino bem mais trágico do que tem sido o de Kim.

Ou seja, podem tentar continuar associando nossa bunda e nossa sexualidade com fraqueza e demérito, mas nós já aprendemos que isso é: balela. E nós não estamos mais sozinhas. Nós somos muitas, cada dia mais fortes e mais donas da nossa própria bunda. Parem de se envergonhar e apenas aceitem <3

Aproveito para deixar esse recado do Funkadelic pra quem ainda não entendeu (liberte sua mente e sua bunda seguirá):

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