Lembro de ter lido com distanciamento, ano passado, o texto de uma mulher egípcia sobre o horror das violências de cunho sexual contra mulheres nas revoluções por lá. Ela dizia que falar sobre isso ainda era tabu, temiam que assumir que rolava tiraria o valor da revolução. Mas, em última instância, ela dizia, isso ocorria pois a mulher ainda era vista como um ser menor. Sem relevância política.

Nos eventos de 50 anos do Golpe Militar parece que, pela primeira vez, começamos a abrir espaço para vozes femininas relatando que, sim, em diferentes graus todas as mulheres guerrilheiras passaram por algum tipo de violência sexual em seus processos de tortura.  Para não ficar no passado mais distante, no passado recente tivemos casos tão inimagináveis quanto Pinheirinho. Fora os inúmeros relatos de manifestantes, ainda mais recentes.

É de se esperar, portanto, que alguém venha a público se opor a isso. É de se esperar que a questão da mulher tenha alguma relevância em nosso país, com sua primeira presidenta. Busquei e não achei nenhuma declaração. Nem uminha.

Claro que o que motiva esse ódio todo especial contra a mulher que ousa se posicionar politicamente, indo para a rua, afirmando sua voz política antecede tudo isso, é fundamentalmente baseado nessa cultura de estupro que costura desde as atividades mais sutis do cotidiano. Mas se, em seu contexto político, essa violência passa quase que totalmente despercebida, volto pra fala da egípcia do começo e pergunto: podemos continuar nos dizendo que somos seres humanos politicamente relevantes?

Se não confrontarmos, se esperarmos mais 50 anos para falar deste tipo de violência, esse monstro não vai desaparecer, só vai ficar maior e maior e maior e crescer na sombra de todos os nossos medos, se alimentando da nossa relevância política.

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