Eu nunca quis ser mãe. Era algo que sequer passava pela minha cabeça.

Eu queria escrever, viajar, cantar, morar sozinha, fazer coisas, passar dos limites, viver.

Aí um dia eu descobri que estava grávida. Foi o maior susto da minha vida. Eu tinha acabado de lançar meu primeiro livro, morava temporariamente com meu namorado, não tinha dinheiro, não tinha contrato fixo, enfim, foi um caos.

Mas apesar da surpresa, da falta de planos, de tudo, eu quis. Não foi ali que eu “virei mãe”, mas eu quis. E fiz. E tive a Catarina em casa, com parteira, há quase 12 anos, em uma época em que parto domiciliar era visto como coisa de gente louca, selvagem e inconsequente.

Eu não sabia o que me esperava. Não tinha ideia. Ninguém fala a verdade sobre a maternidade.

Como eu disse, jamais sonhei em ser mamãezinha. Não poderia, isso não faz parte de mim. A clássica mãe abnegada não combina comigo; não sou e jamais seria essa mãe. Sequer tentei, pois isso me deixaria completamente maluca, tentar ser algo que não sou porque dizem que é assim que tem que ser. Acho massa que algumas mulheres tenham esse enorme prazer na maternidade, uma amiga minha esses dias disse que o grande tesão da vida dela era ser mãe. Eu não sou assim. Acho uma balela e uma falta de respeito sem fim dizer que “só mãe sabe o que é o amor”. Bullshit. E aí o filho nasce, a mulher não sente o amor imaculado da santa mãe e acha que o problema é com ela.

Não é.

Veja bem, eu amo demais minha filha e acho incrível que esteja formando uma pessoa que eu acredito que virá a ser uma mulher incrível, mas não é nem dela que estamos falando. É sobre o que ser mãe representa.

Toda a cobrança de todas as coisas cai nos ombros da mãe. Quando ela morou em outra cidade com o pai, durante dois anos, eu era a mãe desnaturada que “abandonou” a filha – mesmo que eu pagasse pensão. Mesmo que eu estivesse trabalhando num lugar que eu odiava, em um trabalho que não tinha nada a ver comigo, pra poder reerguer minha vida, que estava toda destruída. Eu não importava; importava o tal “abandono”. Quando ela voltou a morar comigo e o pai foi morar em outro país, não ouvi um pio sobre abandono, responsabilidade, nada. Nada.

Mãe é mãe, pai é pai, né?

Mulher nasceu pra isso, afinal. Nasceu sabendo, com o mágico instinto materno que toda a mulh… Não.

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Crio minha filha sozinha, apenas com meus recursos financeiros e emocionais. “Normal”, podem pensar alguns, mas vos digo: normal uma ova, candidato. Criar um filho sem contribuição alguma é uma tarefa hercúlea que foi normalizada por nossa sociedade que coloca toda a responsabilidade na mãe.

Ser mãe não tem necessariamente a ver com seu filho, mas com o que uma sociedade inteira joga nas suas costas. Com família dando pitaco e se metendo em absolutamente tudo com julgamentos desagradáveis que servem pra que? Isso mesmo, nada.

Tem que trabalhar e não tem com quem deixar? Desnaturada.

Está cansada e não aguenta mais? Quem mandou abrir as pernas? Agora aguenta.

Quando você é mãe, sua vida é controlada por todo mundo. Todo mundo te julga o tempo todo.

Já os pais, nossa, são heróis quando fazem o mínimo.

Se cobrassem dos pais 1/3 dos que cobram das mães, nossa sociedade mudaria drasticamente.

E é essa a reflexão que eu deixo para o dia das mães, mores. Menos nas nossas costas, por favor. Inclusive acredito que a comemoração de hoje poderia muito bem ser férias da maternidade, spa, filhos lavando louça, massagem nas costas e paz.

Sempre lembrando que nenhuma mulher deve se sentir na obrigação de querer ter filhos. Você pode não querer. 

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