“eu sou pobre, pobre, pobre / de marre, marre, marre / eu sou pobre, pobre, pobre / de marré deci”

Lembro dessa cantiga de roda que cantávamos quando criança.

Hoje, mais de 25 anos depois, essa musiquinha vem à mente quando recebo o salário e vou pagar as contas. Sim, migas, me abracem! As contas são maiores do que o dinheiro disponível para pagá-las. Ora, você não tem marido, nem filhos, já viajou para o exterior e fica reclamando de pobreza. Você não sabe o que é pobreza. Sei sim, caras.

Minha avó era filha de escravos, e décadas após a abolição, a vida continuava miserável. Por ter ficado viúva jovem e com criança pequena (no caso, minha mãe) as coisas eram ainda mais difíceis. Eram os anos 40, quando as mulheres deviam apenas casar, ter filhos e ficar em casa. No caso dela, ela precisou arrumar um emprego como lavadeira em várias casas de imigrantes que moravam na Mooca. Minha mãe não tinha com quem ficar, e por isso, com 5 anos de idade, ela ficava sozinha em casa o dia todo. Uma das suas lembranças mais remotas: a água invadindo a casa quando chovia bastante e ela subia em cima da mesa para esperar a mãe chegar. Para proteger a si e a filha, minha avó tinha uma arma em casa. (não a julguem, apenas pensem no contexto que viviam.)

Os-Gemeos-senza-titolo

Nisso tudo, os anos se passaram e chegamos aos anos 60. E minha mãe continuou com o destino das mulheres da família: tinha ido pouco a escola, e a fonte de sobrevivência era o emprego doméstico. Como mulher jovem, ela morava na casa que trabalhava e saía duas vezes por mês para ir em casa. O dinheiro ganho era para ajudar a minha avó que já não podia mais trabalhar.

No mundo lá fora, aconteciam mil coisas. Golpe militar, revolução sexual, vida hippie… Mas para quem vivia na periferia da zona leste de SP, como minha mãe, isso era uma coisa distante e vista na tela da televisão da casa da patroa.

Cheguei ao mundo nos anos 80. Moro até hoje na mesma casa. Em vez da periferia da zona leste, meus pais vieram morar na periferia da zona sul de SP. Cresci em meio a violência, essa que hoje povoa todos os jornais e faz parte do cotidiano de todos, sejam pobres ou ricos.

Para mim, era normal ver homens armados passarem na porta de casa. Quase toda semana, alguém jazia morto na rua. E nós brincávamos no meio disso tudo. Estou falando de 25 anos atrás, e se alguém tiver curiosidade, pode pesquisar os jornais da época para confirmar que essa violência não era noticiada.

Minha mãe falava: minhas filhas irão quebrar essa cadeia. Elas não viverão a vida que tive quando jovem. Então éramos incentivadas a estudar, e mesmo assim, vivíamos o drama do ensino público deficiente, os amigos crescendo e sendo mortos ou presos.

Sim, eu quebrei a cadeia. Cresci, me formei e consegui um emprego melhor (isso trouxe alguns confortos). Não, não contarei história edificante sobre mérito porque isso não é tão simples quanto defendem (assunto para outro post). Hoje, ainda moro na periferia, pego ônibus lotado, sofro com falta de opções de lazer no meu bairro (que ainda sofre – e muito- com a violência), enfrento a discriminação por morar distante do centro ou um bairro considerado mais nobre.

Por viver aqui, observo a vida de outras mulheres, que enfrentam tudo isso e ainda mais. São chefes de família, que como minha avó, não tem uma creche onde deixar seus filhos, ganham um salário mínimo para sustentar toda família, convivem com companheiros violentos e não podem escapar disso por não ter como se sustentar, e muitas outras coisas.

mulher pobreProporção dos rendimentos médios por hora (Dieese)

Apenas para ficar em um exemplo, são as mulheres pobres as maiores vítimas de abortos mal feitos. Pensem no desespero de uma mulher com uma gravidez indesejada sem nenhuma condição financeira para ter mais um filho. Elas são as maiores vítimas fatais. Alguns dirão: quem mandou não planejar? Empatia passou longe, né colega?

A balança nunca foi equilibrada, e se ela subiu um pouquinho com o passar dos anos, nem todas as mulheres foram atingidas. Principalmente, as mais pobres.

Então talvez eu tenha conseguido colocar a cabeça para fora no mar revolto que é nossa sociedade, em especial para as mulheres. Mas muitas outras, ainda vivem submersas, inundadas com pobreza, opressão e violência. Temos muito caminho pela frente.

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