Setembro é o mês que dedicamos, no mundo todo, ao combate e prevenção do suicídio. Ano passado já escrevi sobre a importância de falar do tema, mas este ano um crime violento tem feito com que muita gente trate disso de maneira um tanto leviana, então resolvi fazer um pouco diferente.

Com mais de 5k de shares um post de Facebook diz o seguinte:

Eu nunca tomei conhecimento de uma mulher que perdeu o emprego e resolveu matar a família e se matar pq não ia mais conseguir sustento, mas esse não é um gesto incomum entre os homens, não mesmo. Mulher quando perde o trabalho vai vender Avon, pano de prato bordado, chinelo customizado, bolo, salgadinho, vai dar faxina, se prostitui, tudo pelos filhos, pela família, muitas vezes sustentando marido desempregado e/ou acomodado também. Matar mulher e filhos porque ficou desempregado é coisa de homem, não tem nada a ver com depressão, com loucura, com estresse ou com perturbação mental por causa do desemprego, isso é mesma velha violência característica do macho, é violência misógina daquele que enxerga a mulher e os filhos como sua propriedade e por isso crê ter todos os direitos sobre eles, inclusive de exterminá-los.

Entendo que a ideia do post seja falar sobre violência misógina e acho que não precisamos descartar os componentes de cultura machista no ato para entender onde o texto erra. Então vamos por partes.

Primeiro de tudo, como escrevi ano passado, é importante falar sobre suicídio como forma de conscientização. Quando, porém, a gente trata do tema de maneira um tanto imprudente podemos, sem querer, incorrer num discurso que incentive alguém que já está deprimido.

Ou seja, quando a gente diz que uma mulher que perde o emprego não se abate, mas vai ‘vender Avon’, a gente reafirma uma série de ideias que podem ecoar em alguém que já está mal como uma confirmação da sua falta de valor, entende?

Uma delas é a ideia de que desemprego não é um problema tão grande pra ninguém e a outra é a ideia, que nasce do machismo, de que as mulheres estão sempre se superando e sendo fortes sem ajuda.

gréciaUma pixação grega onde se lê algo como: “Eu não desejo nada, eu não tenho medo de nada, eu estou desempregado”

Começando pelas mulheres convém lembrar que desigualdade profissional não é só diferença salarial. Em todo o mundo o desemprego é maior entre as mulheres. No Brasil, por exemplo, onde vivemos uma crise diretamente relacionada com a falta de emprego, em setembro de 2015 (agora devem ser mais) eram 4,6 milhões (52%) de mulheres sem ocupação. E se nós temos mais de 11% de desempregados, no Brasil, mesmo que tu vá vender Avon a coisa complica (porque tem menos gente com dinheiro, obviamente).

Daí tu pode me dizer: “ah, mas isso não tem nada a ver com o crime”. E eu serei obrigada a te dizer que é provável que tenha, sim. Porque quando o post fala que isso ‘não tem nada a ver com depressão, com loucura, com estresse ou com perturbação mental por causa do desemprego’ ele está potencialmente muito errado.

O desemprego causa mais de 45 mil suicídios por ano, no mundo, segundo este estudo. Ou seja, 1/5 dos suicídios do mundo está relacionado com situação econômica. Por exemplo, durante a recessão americana, entre 2008 e 2010, este estudo estima que aproximadamente 10 mil pessoas se suicidaram (só nos Estados Unidos e na Europa). E a crise Grega gerou um aumento de 35% nos índices de suicídios. Inclusive esta matéria sobre depressão e suicídio durante a crise grega começa citando Valia, uma advogada de 36 anos. Ela diz:

Eu não me sinto mais tão autônoma. Eu sinto como se realmente não tivesse controle da minha vida. Existe uma expressão que usamos muito ultimamente: “Onde é o fundo do poço?” Porque parece que a gente tá caindo, caindo e caindo e não consegue parar.

E ela sequer tinha perdido o emprego, ou seja, uma crise econômica afeta inclusive quem tem renda porque alteram-se muitas coisas, como poder de compra e a estabilidade profissional. Não sou uma profissional da saúde mas consigo notar claramente que desemprego e crise tem em comum com depressão o fato de nos tirarem as perspectivas. Então não é bobeirinha, não. Por isso digo alto lá quando questionamos a depressão alheia, isso é um reforço de discurso preconceituoso pra caramba que só afeta quem está aqui, vivo, agora. E muitas dessas pessoas que estão vivas, agora, estão enfrentando problemáticas que sequer cogitamos quando tratamos a situação assim.

E alto lá, também, quando reforçamos esta ideia de que a mulher, quando esbarra em um problema financeiro, não se abala e vai vender Avon. Eu não fui. Na verdade passei boa parte de 2015 em depressão porque não conseguia pagar as minhas contas. Não que agora esteja muito melhor, já que todo mês parece uma batalha (nem sempre ganha). Então quando li isso só consegui suspirar, porque eu não tenho me sentido nem um pouco essa mulher, não, eu me abalo e tem sido uma luta diária não me abalar ao ponto de me tornar incapaz de tentar. E não sou só eu, a Polly, a Clara e mais uma dúzia de amigas minhas estão na exata mesma. Quer dizer, a gente não é mulher?

suspiro

Então tu pode dizer “OK, entendi essa parte” mas insistir que: “suicídio não é o mesmo que matar a família”. E eu vou ser obrigada a te dizer que aí também entra a cultura machista, que é aquela que constrói a masculinidade do homem em cima de violência, mas também em ser o responsável pelo sustento financeiro. O problema é que quando a gente diz que ‘isso é coisa de homem’ está ignorando a ideia de masculinidade e feminilidade como construções e colocando como algo inerente, uma coisa que não pode ser mudada. Não que seja nossa obrigação iniciar essa mudança, mas colocar uma coisa assim como algo imutável é a reafirmar ela, saca? “Homem é assim”. Homem é gente e, como tal, é múltiplo. Ou deveria.

E aqui eu cito a maravilhosa Aline Ramos:

Se complexifica a mulher, mas pouco se fala sobre homens e as mudanças nas masculinidades.

(…)

Precisamos discutir a masculinidade e jogar a bola para homens sobre essas questões.

Não acredito que seja obrigação do Feminismo salvar homens, mas não dá pra fazer análise de gênero sobre TUDO tratando homens apenas como o MACHO clássico. Não dá pra analisar o mundo partindo do pressuposto de que mulheres são sempre vítimas e homens vilões.

E quando falamos em homens é importante lembrar que existe uma epidemia de suicídio entre eles. Tanto que o Reino Unido chegou a fazer uma campanha direcionada, porque lá os índices diminuem entre as mulheres e crescem entre os caras. E para muita gente isto está diretamente relacionado com a masculinidade. Tem quem chame de “epidemia silenciosa” e tem também uma galera que diz que mesmo o silêncio em torno do assunto vem da mesma construção.

Ou seja, tem um papel que tu deve cumprir e se tu não te encaixa nele e tenta uma saída extrema a própria saída extrema não é debatida por não se encaixar no papel, entende a loucura? E entende porque dizer ‘isso é coisa de homem’ é reforçar a coisa toda?

A masculinidade é constituída, basicamente, da rejeição de tudo que é considerado “feminino” na sociedade. Neste caso, se o cara sofre, ele é menos homem. Por isso os homens sofrem sozinhos, dividem muito menos que nós e acabam tirando a própria vida bem mais. É a noção de fracasso do masculino que costura toda a ideia. Uma ideia bastante idiota, mas terrível para mulheres e homens.

The-Mask-You-Live-InComparado com uma garota da mesma idade, um menino adolescente tem sete vezes mais chances de cometer o suicídio

O Netflix tem um documentário bem interessante sobre masculinidade que, entre outras coisas, trata do tema do suicídio e violência entre os caras e pode interessar vocês, se chama The Mask You Live In. Nele também é possível notar que a masculinidade não existe descolada de um mundo que prega a masculinidade, de um mundo que diz que existem coisas de homens e coisas de mulheres. Na Wikipedia diz assim:

Segundo a literatua sobre gênero e suicídio, as taxas de suicídios masculinas são explicadas em termos de papéis de gênero tradicionais. Os papéis masculinos tendem a enfatizar níveis de força, independência e comportamentos ousados. O reforço destes papéis de gênero muitas vezes faz com que homens não busquem auxílio para tratar depressão e sentimentos suicídas.

“Mas tudo isso é sobre suicídio, não sobre assassinato!”. Na verdade não só. Eu não sou profissional da área como esta colega, mas me parece bastante plausível uma soma de desemprego e masculinidade com uma potencial doença. Também me parece apenas lógico que esse complexo de Deus da masculinidade tenha uma relação direta com se achar o único capaz de gerar sustento para a sua família. Com a ideia de que seria uma “indignidade” só “abandoná-los”.

Não estou questionando nem diminuindo a brutalidade. Masculinidade é constituída por brutalidade, afinal. Mas, pra mim, dizer que não existe nenhum sofrimento psíquico envolvido é juízo de valores porque olha pra existência do sofrimento como “desculpa”, como se algo fosse capaz de tornar essa violência “menor” ou “melhor”. Não existe desculpa para uma série de coisas, mas isto não as torna menos reais. E quando olhamos para isso como uma questão real notamos que passou da hora de promover a busca por um debate menos simplificado que abarque questões complexas.

Por isso queria propor que neste setembro, mês de prevenção ao suicídio, a gente debata mais, especialmente as questões que são tabu. E torne mais claras coisas que são tão estudadas e tão pouco divulgadas. E permita (se rolar até ajude) o outro a manifestar seus sofrimentos sem moldá-los aos nossos juízos. Já será um avanço. Já ajudará muita gente a começar seu processo de recuperação.

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