Aconteceu. Minha curiosidade conseguiu superar minha fobia social. Procurei relatos na Internet pra me encorajar, li sobre as experiências de outros casais e, finalmente, criei coragem e fui com o meu namorado.  

Chegando lá, o desconforto começou pra mim (lembrando que essa foi apenas a minha experiência e que não retrata com a devida justiça todos os casais adeptos do swing ou todos os lugares que proporcionam isso: narro aqui apenas o que aconteceu comigo).

Imaginava um lugar onde houvesse mais diálogos entre os casais, conversas interessantes e sedutoras antes de irmos direto ao ponto. Uma espécie de preliminares. Não foi o que ocorreu. As mesas eram todas de dois lugares, parecia um bar frequentado exclusivamente por casais, cada qual no seu quadrado, bebendo seus drinques e assistindo às dançarinas e aos dançarinos que se revezavam no palco.

Comecei a observar que algumas pessoas se dirigiam a um lugar ainda incógnito pra mim. Morrendo de curiosidade e esperando que algo acontecesse, decidi levantar com meu namorado pra explorarmos os outros cantos da casa. E foi aí que eu entrei num labirinto que, ao menos naquele momento, me pareceu sem saída.

Era um lugar completamente escuro onde, ao longe (bem ao longe), havia uma pequena tela exibindo um filme pornô qualquer. Reforço aqui que não era um escurinho sedutor, era breu total, apagão mesmo. Não enxergava nada e comecei a ficar levemente em pânico, me sentindo muito vulnerável. Entendo que essa ideia pode funcionar sexualmente pra outras pessoas, mas não rolou pra mim, ainda mais assim, sem aviso prévio.

Começaram, então, a sutilmente encostar em mim: não sabia quem era nem da onde vinha, e fui apalpando os arredores pra pelo menos identificar de onde vinham os toques, já que eu incessantemente ouvi do meu namorado que não eram dele (devo ter perguntando apenas umas 347 vezes).

Foi então que a coisa ficou mais agressiva. Um cara enfiou a mão por dentro da minha saia, tentando tirar minha calcinha. Meu choque na hora foi tão grande, devido a lembranças do meu histórico pessoal, que eu não consegui reagir. Eram muitos barulhos e pessoas ao meu redor, eu não enxergava nada e simplesmente fiquei paralisada. Voltei a perguntar pro meu namorado se era ele, ouvi de novo a mesma resposta, mas a partir desse momento não aguentei, comecei a chorar ali mesmo, pois me senti violentada e invadida. Me senti mais vulnerável do que nunca.

Meu namorado me levou em direção a um quartinho mais afastado pra que eu pudesse chorar com mais privacidade. Um casal nos seguiu e foi entrando no quarto atrás da gente, meu namorado apenas os dispensou e fechou a porta. Não sei se viram se eu chorava ou não. Se viram, não fez muito diferença, pois permaneceram na frente da nossa janela que, como só vimos depois, estava com a cortina aberta. Os quartos, um ao lado do outro, tinham buracos na parede para que homens e mulheres pudessem enfiar mãos, braços, pênis e sabe-se lá mais o quê. Não demorou muito pra eu sentir as mãos encostando na minha perna. Entre a raiva e a decepção, só saí daquele lugar, paguei o preço exorbitante e voltei pra casa.

Se tudo isso parece exagerado ou uma cena de filme de terror, não se engane: foi exatamente assim que me pareceu. Estava só esperando a hora de ser esquartejada nesse cenário que transformou minha suposta noite de prazer em uma angústia sem fim. Imaginamos sempre que nossa reação diante do abuso será outra: queria ter reagido, gritado com o cara, dito que não importava que estivéssemos naquele espaço, nada justifica que ele me reivindique como propriedade sem a minha autorização, sem o meu consentimento.

Fiquei bem mal por uns dias. A experiência de se sentir lesada, invadida e vulnerável é terrível, não importa o contexto. Naqueles momentos, senti que eu não era dona de mim. Qualquer um que estivesse ali poderia chegar e reivindicar uma parte do meu corpo, que, afinal, já não era mais meu. Contei essa história apenas pra uma ou outra amiga mais chegada, pois estava envergonhada do ocorrido e com medo das reações alheias.

“Ah, mas você foi pra uma casa de swing, você estava pedindo por isso”.

711

Não, querida pessoa, não estava. Eu fui a uma casa de swing pois queria ter essa experiência com o meu namorado. E qual experiência? A de transar com o consentimento dos respectivos pares. Queria conversar, entrar numa espécie de acordo pra, assim, prosseguir com a minha noite.

O que também dá brecha pra: “vocês mulheres não param de reclamar e de se vitimizar, você vai pra uma casa de swing e ainda acha ruim que o cara pegou na sua bunda?”. Sim, acho ruim, acho muito ruim: eu fui com o intuito de escolher com quem eu iria transar e não pra ser apalpada por quem quer que aparecesse. Sabe aquele história de que “eu dou pra todo mundo, mas não dou pra qualquer um”? Pois é.

“Você é uma piranha”: bom, se você parou nesse estágio, querida pessoa, não tem muito o que eu possa fazer por você, só falar pra quem sabe você se libertar mais, se não sexualmente, pelo menos nas ideias. Abuso é abuso, gente, não importa se é no meio da rua, na universidade, na balada ou na casa de swing. O meu corpo é meu e não cabe a quem quer que seja se apropriar dele sem consentimento. Não é não, inclusive no swing!

, , ,