Vocês conhecem aquela máxima: “Não existe nada tão parecido com um machista de direita quanto um machista de esquerda”?  Poisé

Aqui estou eu, uma mulher brasileira desconhecida, lutando contra meu próprio ódio e asco para conseguir escrever um texto que deixe claro por qual motivo o que está acontecendo nos últimos dias, com celebridades conhecidas no mundo todo, está longe de ser uma besteirinha isolada.

Poderia citar exemplos, mas prefiro explicar porque meu ódio deve muito da sua existência a esta frequência socialmente aceita com a qual o mundo todo continua tratando a mulher como menos que ser humano e, por consequência direta, seu corpo como objeto sem dono.

Imagino que seja difícil para muitos homens (e algumas mulheres, pois quem mais sofre com machismo em todos os sentidos ainda somos nós) compreender por qual motivo não devemos tratar fotos pessoais roubadas como um regalo. O que nós sempre dizemos sobre a cultura fazer com que os homens se sintam no direito à muitas coisas tem relação com isto, também. É essa ideia de que o mundo lhes deve coisas que serve como um alicerce fundamental da cultura do estupro.

mulher não é decoração

E a cultura do estupro não é, apenas, fazer sexo com uma mulher contra sua vontade. É subjugar essa mulher em diversos outros sentidos. E invadir a privacidade de uma mulher pública para lembrá-la que, não importa a distância que tenha percorrido, ela ainda é apenas uma mulher, sem direito ao seu corpo e à sua sexualidade, é cultura do estupro. E é cultura do estupro em uma ferocidade atroz.

Então quando vemos, novamente (como ocorreu no caso das meninas que se mataram após a exposição de sua privacidade) especialistas dizendo em redes de televisão que a culpa é da mulher por tirar fotos, estamos apenas vendo um reforço da ideia de que a mulher não tem direito sobre seu corpo. Que uma mulher assexuada não passaria por isso. Que sexualidade, para a mulher, ou é fardo ou vergonha.

E, sim, ainda temos um longo e perverso caminho para percorrer até que programas de televisão dirigidos para a família brasileira repensem seu discurso. Sabe como eu sei? Pois – e isso é o que me deixa especialmente destruída por dentro – militantes repetem o mesmo discurso.

Isso basicamente quer dizer que, mesmo condenando sistematicamente as violências sociais e defendendo um mundo melhor para todos, essas pessoas esquecem de contemplar a mulher no conceito do todos.

mulher objeto#RespeitaAsMina, carai

 E isso me deixa com uma bola de ódio e tristeza profundos entalados na garganta, especialmente quando lembro de uma entrevista que a Beauvoir deu em 1976, onde ela fala de algo similar. MIL NOVECENTOS E SETENTA E SEIS.

Traduzo freestyle para vocês repensarem

Tendo entendido que o capitalismo leva, necessariamente, à dominação dos pobres do mundo todo, massas de mulheres começaram a se unir à luta de classes – mesmo sem aceitar o termo “luta de classes”. Elas viraram ativistas. Se uniram às marchas, às demonstrações, às campanhas, aos grupos underground, à militância de esquerda. Elas lutaram, tanto quanto qualquer homem, por um futuro livre de exploração e alienação.

Mas o que aconteceu? Nos grupos e nas organizações aos quais elas se uniram, elas descobriram que eram tão segundo sexo quanto na sociedade que elas queriam modificar.

(…)

As mulheres começaram a ser as datilógrafas, as fazedoras de café desses grupos pseudo-revolucionários. Bom, eu não deveria dizer pseudo. Muitos dos homens desses movimentos eram genuinamente revolucionários. Mas treinados, criados, moldados numa sociedade orientada aos homens. E esses revolucionários trouxeram essa orientação masculina para os movimentos, também.

Compreensivelmente, esses homens não iriam, voluntariamente, abrir mão dessa orientação, assim como a classe burguesa não vai abrir mão, voluntariamente, do poder. Então, assim como depende dos pobres tomar o poder dos ricos, também depende das mulheres tomar o poder dos homens. E isso não significa dominar os homens de volta. Isso significa estabelecer igualdade.

(…)

Vamos colocar de outro modo: uma vez dentro da luta de classes, as mulheres compreenderam que essa luta não elimina a luta de gêneros. E foi nesse ponto que eu mesma me tornei ciente do que acabei de dizer. E isso – essa consciência de que a luta de classes não abarca a luta de gêneros- é a novidade. E a maior parte das mulheres sabe disso agora. E essa é a grande conquista do movimento feminista, que vai alterar a história nos anos vindouros.

Dito isto, sei que não é possível que um homem entenda a sociedade patriarcal, assim como não é possível para mim entender o que é racismo. Podemos, apenas, fazer um exercício diário de empatia, buscando compreender o outro, ao mesmo tempo que repensamos o que projetamos nesse mundo melhor que desejamos e marketeamos. Ele ainda é um mundo baseado em dominação para alguns? Se for,  quão diferente ele é do mundo atual, no qual vivemos?

Espero que esse texto sirva para alguns de vocês como serviram para mim tantos outros textos e experiências, me fazendo notar que só existe liberdade para todos, liberdade para alguns é apenas trocar o poder de lugar.

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