[AVISO DE GATILHO]
Aos 17 anos eu era uma jovem (quase) normal e ia em muitas festas. Em virtualmente todas elas um homem muito bonito e mais velho ficava flertando comigo e me acompanhando pelo ambiente.

Alguns meses depois este homem me abordou no meu, então, bar preferido (saudoso Garagem Hermética)

– Eu te vejo em vários lugares

– Eu te vejo me vendo em vários lugares

Saí de perto dele com a certeza de que tinha deixado claro que não estava interessada. Mas ele continuou frequentando os mesmos lugares que eu e me acompanhando de longe.

Mais alguns meses depois, o mesmo homem sentou na mesa de bar que eu estava com amigas, após um festival de teatro. Enquanto ele falava sobre como sofria para conseguir se aproximar de mim, ia encantando geral com sua perspicácia e beleza. No fundo todas concordaram pois eu era bastante sorumbática e nunca fui conhecida por minha simpatia. A história parecia apenas plausível.

Tão plausível que eu mesma comecei a acreditar que talvez existisse algo mágico ali. E acabei ficando com ele nesse dia. E mais algumas vezes depois.

Mas foi nesse primeiro dia, quando fiquei com ele, que começou uma fase de horror inenarrável na minha vida e que acabou costurando toda a minha juventude. Por anos ele estava em todos os lugares que eu ia. E, pior, me abordava quando eu voltava sozinha pra casa (preferencialmente de noite), descobria meu telefone, onde eu morava, meus interesses.

E isso foi me debilitando. Eu parei de sair de casa de noite. Depois simplesmente de sair de casa. Vivia com medo, medicada e doente.

Mas demorou bastante tempo para que as pessoas na minha volta compreendessem que ele era um maluco, não um sujeito apaixonado, e que eu estava ficando maluca com isso. E demorou ainda mais para que eu conseguisse falar do medo que ele me trouxe. E ainda mais para notar o quanto disso eu vou levar para o resto da vida.

Para algumas pessoas (inclusive pessoas próximas) eu nunca comentei sobre isso. É algo que ainda considero dolorosamente pessoal.

magraderuim

Arte da Magra de Ruim

Tem gente que nunca consegue demonstrar isso para os amigos e familiares. Ou porque o cara parece um sujeito normal, ou porque já teve um relacionamento com ele ou porque, simplesmente, vivemos em uma sociedade machista.

Comigo foi mais fácil de demonstrar porque ele era o tipo de stalker definido pelo especialista Paul Mullen como intimacy seeker.

Ou seja, ele acreditava, dentro da cabeça dele, que nós tínhamos um relacionamento. Mais que isso, uma predestinação. Uma coisa mágica nos unia desde o dia que ele me viu pela primeira vez (eu tinha 5 anos!). Mas acontece que o mundo doente no qual só ele vivia também incluía muitas outras fugas da realidade. E, como um doente mental não tratado, ele foi deteriorando física e mentalmente ao longo dos anos.

Mais de 20 anos tinham passado desde o primeiro dia que ele me viu até a última vez que o vi. Nesta última vez ele ameaçou me sequestrar, mais uma vez, e reafirmou que se eu não ficasse com ele não ficaria com ninguém.

E o jogo dele era o medo, a posse, a dominação. Mas isso era muito difícil de ver porque o discurso era o do amor verdadeiro.

O discurso do amor verdadeiro e da predestinação é um guarda-chuva para muitas coisas terríveis que ocorrem, especialmente com mulheres. E digo especialmente mulheres porque ele comporta, em si, muito do discurso misógino de propriedade que vitima tantas mulheres, diariamente.

Nós fomos feitos um pro outro.

Você é minha.

Essas coisas, todas, são doentias. E constatar isso vai além da retórica. Somos unidades de existência, ou seja, não fomos feitos pensando em ninguém nem somos propriedades de ninguém, pois não somos coisas. E pensar algo assim está longe de ser amor, como eu vejo.

mineEu sou teu e tu é minha (não, caras, cada um é de si mesmo)

Na minha percepção ele era maluco. E a primeira vez que vi um documentário sobre stalking, identifiquei exatamente isso (e senti um alívio bem bizarro). Mas seria ridículo dizer que não existia misoginia ali. Teria inúmeros exemplos para citar, um deles era que ele contava sobre nossas peripécias sexuais para a cidade toda (eram mentira, inclusive) com o intuito de me rebaixar e me isolar. E ele tentava se impor, me segurando, ameaçando e coagindo. E eu ainda tinha, contra mim, o fato de ter ficado com ele.

– Mas tu pediu, né?

– Não pode reclamar, pois ficava com ele

E junto disto, ele também tinha um talento para manipular. A linguagem, a situação, as pessoas. Ao ponto de eu não saber onde começava a realidade real e as loucuras dele. Será que eu não tinha partido o coração do cara, mesmo? A ex namorada dele (uma mulher muito bonita e inteligente, como ele) me ameaçava e dizia que eu estava destruindo aquele cara tão legal. Será que eu não estava?

E isso porque o discurso do amor verdadeiro é ilusório. Ele nos faz acreditar que as coisas são sobre nós. Ele me ama, eu sou especial para ele ou a culpa é minha são todas frutos da mesma árvore de ilusão. E a verdade é que ele sequer me conhecia.

Stalking, pelo que aprendi, não tem nenhuma relação contigo. Tem gente que prefere acreditar que sim, tanto como um discurso de culpa como por um discurso de enaltecimento, mas a real é que o stalker está no centro da sua história: ele tenta te moldar a ela. E ele é um manipulador profissional, por isso todos gostam dele. E isso tudo faz parte do processo de te moldar ao mundo dele e te isolar, fazendo questionar a própria sanidade.

Então, eu tive um stalker. Ao longo dos anos e, em especial, depois do texto da Roberta, descobri que isso é bem mais frequente que imaginava quando aconteceu. Não que seja algo bom, mas talvez fosse ter sabido dessa frequência na época.

De toda forma, as vezes eu olho pro passado e penso como tive sorte (daquele tipo que só existe junto com azar). Não sei como sobrevivi nem como me mantive sã. Convém lembrar que a grande maioria dos feminicídios foram anunciados por comportamentos assim (e mesmo a tortura psicológica não é pouca coisa, não, acredite). Por isso, quando eu vejo um possível stalker participando de um programa de TV, só enxergo misoginia.

E temo pelos discursos (de amor, culpa, vergonha e medo) que podem recair sobre as mulheres desse programa. E também temo pelo que perigo real que pode ser imposto a elas e pelo trigger com outras tantas mulheres que já foram vitimadas por isso.

Mas, o pior de tudo, acho que será o reforço e glamourização em relação a este comportamento que fracassamos em tratar pelo que é: criminoso. Isso, aliado ao costume de dizer que ‘estava stalkeando’ cotidianamente, são jeitos de normalizar e tornar asséptico um tipo de violência (gerando mais sofrimento para as vítimas).

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