Todo mês revistas femininas tentam nos convencer que precisamos ser deusas do sexo (em apenas 3 passos). Nós preferimos não, obrigada.

Mês passado eu fui, toda empolgada, na Erotika Fair. Nunca tinha ido em uma e achava que seria uma espécie de Berlin Porn Film Festival. A verdade é que também nunca fui em um BPFF mas, na minha cabeça, ele é uma linda celebração da sexualidade humana, com seus workshops e eventos divertidos. Para minha surpresa (que poderia ter sido resolvida apenas lendo o nome do evento), a Erotika Fair era mesmo muito parecida com uma feira com vários stands de gadgets e demais produtos eróticos.

De toda forma, passeando pelo evento me dei conta que o mundo não vai parar de tentar nos convencer que só existem 3 ou 4 tipos de perversões sexuais e que elas são essencialmente realizadas por um tipo de corpo sendo usado de maneiras recorrentes.

No final a pergunta é, mais ou menos: de quantos dildos uma pessoa precisa para gozar? São esses apetrechos pseudo-BDSM que nos tornam as tais deusas do sexo?

Tentando fugir dessa encruzilhada cultural que diz que nós (mulheres) não podemos gostar de sexo ao mesmo tempo que diz que só valemos socialmente quando somos deusas orgásmicas, a saída parece apontar para os tipos de corpos que (ainda) não foram totalmente absorvidos pelo mercado mainstream de consumo sexual.

Por isso, é com os cadeirantes que vamos aprender  que sexo não é uma questão de metas, consumo, competição. O que torna sexo uma coisa foda (pun intended) é que ele é um constante processo de aprendizado e descoberta dos nossos corpos. De um jeito muito divertido. (E a oxitocina, claro, ela torna tudo muito mais divertido)

Então,  mesmo que tu não seja uma moça ou rapaz cadeirante, nem parceiro de uma ou de um cadeirante, não ignore a verdadeira mensagem desse guia: free your mind and your ass will follow.

 

1. Fugindo da norma

As meninas do Sex(abled) mandam muito

Essa ideia de que o corpo humano – especialmente o feminino – precisa seguir padrões estéticos é o começo do fim da diversão. Sério. Se tu parar pra pensar, a essência do corpo é ser máquina funcional, que serve para nos manter vivos. O resto, são os valores que optamos agregar a ele. E esses valores são uma escolha pessoal.

Por isso eu digo: só mantenha aqueles que te fazem feliz e go for it.

2. Mais que penetração

Sexo, sexo, vasto sexo. Se eu me chamasse Edso seria uma rima, não uma solução

Imagina que, do dia pra noite, tu não sente mais metade do teu corpo, a metade que “interessa”. De onde tu vai tirar prazer sexual?

Uma das coisas que torna proibitiva a construção de um guia de “três passos definitivos” para a sexualidade cadeirante é que cada caso é um caso. O que quer dizer que existem muitas causas para que uma pessoa esteja em uma cadeira de rodas, e cada uma delas tem um efeito diferente sobre os níveis de sensibilidade, ou seja: variam tanto os locais quanto a intensidade com que se sentem as coisas.

O lado positivo disso é que as pessoas acabam descobrindo o que gostam e funciona para elas tentando, não mimetizando uma construção social que diz que sexo é só genital. Afinal, sexo é o que te gera prazer sexual. E tu só descobre o que te gera prazer sexual, explorando todas as possibilidades do teu corpo.

3. Rollercoaster of love

Rugby cadeirante e putaria. Duas coisas que valem a pena.

Não é cuspir no prato que comeu, mas imagina que depois um encontro legal com uma pessoa massa que tu curte muito, vocês voltem para casa para mais uma noite de papai-mamãe, ou mamãe-mamãe, ou papai-papai, de luz apagada.

Credo.

Não que papai-mamãe não seja uma posição massa, mas a verdade é que a maior parte dos casais, depois de um certo tempo juntos, escolhe uma posição preferida e varia bem pouco disso. Claro, se ela é preferida tem um motivo, mas mesmo sendo uma delícia, ninguém come só feijoada todos os dias.

A dica do @danilotetra é: aproveitem que vocês conseguem e façam sexo de pé, porra!

4. Romantismo circunstancial

Eu tenho uma amiga cadeirante que veio me contar do que ela chamou de “sensação de lua de mel”: as vezes o cara, para conduzi-la ao ninho de amor, acaba tendo que leva-la no colo. Depois de rir bastante disso, admito que fiquei pensando que mal há em um pouco de romantismo, afinal.

Não estou falando daquela construção de fragilidade/submissão (quase sempre hetero) que diz que é romântico abrir a porta do carro, estou falando do romantismo como o sinônimo de troca de gentilezas entre duas pessoas adultas que não temem ser delicadas. Ousar ser gentil em um mundo que nos convence que devemos tratar nossa sexualidade como apenas mais um commodity.

Delicadeza, vocês sabem, é para os fortes.

5. Não seja uma deusa do sexo

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Sério. Pare com essa merda.

Se tem uma coisa que esse guia pretende é oferecer cinco passos fáceis para que tu não siga mais nenhum passo. Sexo bom é o que tu gosta. Fim.

Mas uma coisa eu preciso dizer: toda vez que ouço “heteronormativo”, agora, eu penso nessa outra normatividade. Na normatividade das pessoas que não tem nenhuma deficiência e nem sei se isso tem nome, mas deveria (capacitismo, segundo a Clara). E isso me lembra John Waters reclamando que os gays parecem cada vez mais querer ser aceitos dentro do sistema heteronormativo de casar, ter filhos, etc. Nada contra quem curte, mas não somos nem precisamos ser todos iguais. Sexo, amor e afins funcionam por serem o que são, processos de auto-conhecimentos muito divertidos (e pela oxitocina, claro).

Então larga desse manual e vai ser a deusa que tu é, gata.

Colaboraram @milamesmo e @danilotetra

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