O verbo encalhar, em Português, tem alguns significados: ele pode se referir a algo que encontrou um obstáculo para sua flutuação, algo que não teve continuidade, um produto que ninguém comprou ou a “não contrair o matrimônio, ficar solteiro”.

Como se não casar fosse o equivalente a ser um brinquedo da geração passada ou encontrar um banco de areia.

Semana passada me mandaram um vídeo de 4 minutos produzido pela marca de cosméticos SK-II. A postagem original no Youtube já teve mais de 1 milhão de views e mostra a pressão (social e familiar) pela qual passam as mulheres chinesas que, após os 25 anos, não casaram. Elas são chamadas de “mulheres sobra”.

Vejam, vale a pena:

O vídeo mostra alguns tipos de mulheres solteiras: a que tem outros objetivos (ser uma profissional foda), a que gosta de ser solteira e a que não quer se contentar com qualquer amor meia dúzia.

Quando terminei de assistir quis saber do que se tratava e procurei a #ChangeDestiny, que aparece no final. O que eu li foi um monte de mulheres do mundo inteiro emocionadas com o vídeo (e eu mesma estava). Só então parei para pensar que, talvez, uma das ideias da campanha fosse mostrar a diferença absurda da cultura chinesa para a cultura ocidental. O problema é que, no fundo, as coisas não são tão diferentes assim.

casamentoSe preciso for, casarei comigo mesma

Claro, pelo que eu li aqui na China existe, além da pressão social, uma pressão do Estado para que as mulheres se casem. Isso nós não passamos mas uma “mulher sobra” é, nada mais nada menos, que a “encalhada que não conseguiu ninguém que quisesse ficar com ela”. E por mais que, tanto no Brasil quanto na China, uma mulher solteira possa ser e ter muitas coisas, não vão ser poucas as vezes em que ela será vista como alguém que fracassou só porque não casou.

Porque a cultura pode ser um pouco mais sutil no jeito de falar disso, mas os relacionamentos continuam validando as mulheres por aqui, sim. E, depois de certa idade, o único relacionamento possível para uma mulher decente é o casamento.

O texto por trás de tudo isso é o mesmo: é o brinquedo “encalhado” nas prateleiras lá do primeiro parágrafo. Porque “se você realmente gostasse teria colocado um anel no dedo dela”, ou seja, teria escolhido e elevado o status da mulher tirando ela dessa vida.

cat(apenas vdds)

Só que tudo isso, colegas, é uma bela de uma patacoada, né. Primeiro porque mulher não é produto pra ser escolhido nem adquirido e segundo porque ninguém tem obrigação de se casar, mesmo amando. Casamento é uma opção (ou deveria ser).

Um casamento pode ser algo muito bonito, se ambos quiserem isso, mas a função dele não é nem deveria ser tornar ninguém uma pessoa de mais valor para a sociedade. E o fato de ainda pensarmos assim está diretamente relacionado com sermos incapazes de ver as mulheres como existências plenas, que não vieram ao mundo servir ninguém nem ser coadjuvantes da história de ninguém.

E quando a gente muda esse olhar sobre as mulheres até o casamento muda, pode notar, já que um casamento entre iguais, entre duas pessoas inteiras, não é a mesma coisa que um casamento por obrigação social.

Por isso é importante repetir, sempre, que somos as personagens centrais das nossas próprias histórias e, como disse o vídeo, não deixar que pressão nenhuma dite o nosso futuro (nem aqui nem na China. Rs).

eu-me-amoEu te amo, euzinha

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