Minha relação com os quadrinhos começou ainda na infância. Quando minha irmã mais velha – musa idolatrante, como geralmente toda irmã mais velha é – deixava algumas Chicletes com Banana e revistas da Circo espalhadas pela casa. Ela foi meu primeiro exemplo próximo de transgressão feminina. Tinha o cabelo curto, se vestia sempre de preto e sofria todo tipo de pressão pra ser mais feminina aos olhos da família e da sociedade. Usava uns coturnos bem bizarros e lia QUADRINHOS. Uma arte que supostamente pertencia ao universo dos homens. Claro que eu queria ser como ela. Tentar copiar os personagens daquelas revistas para impressiona-la,  desenhar naquele formato meio tosco, maluco e underground – ainda que, claro, sob a ótica de uma criança  – foi, sem eu saber, minha porta de entrada no mundo da 9a arte.

Muitos anos se passaram, entre pausas e retornos segui desenhando despretensiosamente, até publicar  pela primeira vez.

O que minha puerilidade não concebia e que me foi um grande choque, é que pessoas estranharam o fato de uma garota desenhar quadrinhos. O motivo disso soar estranho, minha inexperiência ainda não alcançava. E as coisas seguiram-se assim.

Muitas vezes ouvi comentários de que eu seria um autor disfarçado, que adotara um codinome para testar e expor uma nova linguagem sem grandes traumas. Ou seja, com base em alguns temas que até então divergiam do que se esperava de uma singela mocinha – como sexo, que na mentalidade de alguns é obsessão exclusiva do sexo masculino – minha produção era frequentemente identificada como a de um autor se passando por mulher. Essa constatação estapafúrdia era mais crível que a de uma mulher estar produzindo quadrinhos de humor.

menstuarte

Acho que foi por aí que tive a certeza de que nada seria fácil. O mercado das HQs – principalmente dos quadrinhos humorísticos sempre foi um ambiente misógino. Assim como parte de seu leitor médio. Só a partir de meados dos anos 60, com autoras como  Claire Bretécher, Aline Kosminski, Linda Barry, e no Brasil com Mariza Dias Costa e a Ciça – apesar de que, ainda por volta da década de 30 Pagú produziu algumas tiras em sua coluna n’O Jornal do Povo – o leque de autoras passa a se abrir expressivamente.

docinhos

Insegura, como qualquer jovem artista saudável,  me sentia pressionada pelos sempre presentes parâmetros sociais que automaticamente desqualificam qualquer coisa que se relacione a ideia de feminilidade – ideia torta de feminilidade, convém dizer . Via no fato de ser autora uma espécie de empecilho, e por tal razão tentava disfarçar quaisquer trejeitos e temas femininos na minha produção, assim como nos meus autorretratos, até então meio andrógenos. Não queria ser direcionada ao nicho dos quadrinhos de “mulherzinha”. Termo escrotíssimo e usado exaustivamente à época  – em partes informacionalmente obscura em seus tempos pré web 2.0.

Até que em meu próprio tempo o fodasse encontrou forças, e, de propósito, passei a dar vazão ao que tanto me negava: ser, sem pânico, minha própria fonte em se  tratando de humor com referências ao taxativo e binário universo feminino, –  principalmente nas mentiras bobas que se apregoam em nome do mesmo –  no que de mais grotesco e ridículo eu conseguiria enxergar e transpor. Usar minha vivência como mulher pra justamente transgredir a clássica e vilipendiosa representação humorística do feminino – fortemente baseada em loiras e ou donas de casa traídas e revoltadas e ou motoristas ruins –  pra focar em questões reais. Reais na minha experiência de mulher comum.

Desenhei os maiores peitolões simbólicos que consegui e acabei seduzida pela minha nova regra: produzir o que quisesse sem me sentir acuada.

peida

Quem não conhece a máxima  “mulheres não tem senso de humor ‘’? Desde sempre somos  moldadas a não fugir da etiqueta social que coloca as mulheres de forma apática e complacente perante as situações corriqueiras da vida. Distorcer, criar e exagerar situações para torná-las motivo de riso, desconforto ou choque, sempre foi  algo comum aos homens. Mas ousasse uma mulher fazer o mesmo. Cansei de observar as mais emblemáticas expressões de desconforto pós-piadinhas quando proferidas por mim ou amigas.

O humorismo sempre foi, infelizmente, um território de machos. E eu pouco fazia ideia que ser uma mulher com algum senso de humor era uma espécie de tabu ou raridade. Vale frisar: para homens e principalmente para as próprias mulheres, pois ao que vejo, muitas ainda precisam conseguir rir de si mesmas sem sentirem-se pessoalmente agredidas.

tetris

E me encontrei como cartunista justamente por isso, pra quebrar expectativas de todos os lados que estas viessem. Pra bater no estereótipo, mostra-lo ridículo. Imprimir padrões que de tão arraigados e persecutórios, só vemos quando não estão diretamente refletidos no espelho. E não estamos falando aqui apenas da realidade das mulheres. E sim do humano de forma geral.

carnivoros

O humor é a minha forma de fazer uma leitura da opressão que sofremos, tanto da sociedade, como de nós mesmas, portanto, me é inadmissível a ideia de, como mulher que sou, não me identificar e me ter como parte da luta feminista, mesmo que não veja o feminismo como uma cartilha fechada que devemos seguir  de olhos vendados. A luta por igualdade é importante, mas a luta pelo respeito a diferença também é primordial. Não me interessa exatamente o embate. Me interessa o meio, as ambiguidades que habitam cada uma de nós. Rir do próprio discurso, colocar ele mesmo do avesso faz parte do que entendo como basal na reflexão sobre o que queremos e pelo que lutamos.

As mulheres que tento representar nos meus cartuns, são todas parte de mim. Fora do padrão corpóreo que espera-se delas, sim. Dentro dos tais padrões. De vez em quando. Se importado o tempo todo com isso. Não. Algumas seguras. Meio felizes, meio deprimidas. Contraditórias. Liberadas sexualmente. Algumas medrosas. Outras corajosas. Algumas fortes, outras menos. Submissas, nunca.

abortinho(esse é inédito e, admitimos, queremos tatuar no coccix)

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