A primeira presidenta mulher do Brasil está sendo mantida em cativeiro institucional por seu vice, recém declarado inelegível. Foi afastada de seu cargo, democrática e legitimamente conquistado, acusada de irresponsabilidade na condução das contas públicas por decisão de deputados que, ao contrário dela, são réus da maior operação anticorrupção da história do país.

Não muito longe, uma das primeiras mulheres que chegou a juíza, Kenarik Boujikian, está sofrendo perseguição por denúncia de um de seus colegas de tribunal, acusada de agir ilegalmente ao liberar presos que já haviam cumprido suas penas, mas se mantinham encarcerados por uma questão de morosidade do judiciário. A juíza é reconhecida liderança em Direitos Humanos.

Quase ao lado, uma garota da periferia precisa deixar esse país. Está ameaçada de morte porque denunciou o estupro coletivo brutal que sofreu, que foi filmado e caiu na internet. Grande parte da população deste país, inclusive o primeiro delegado designado ao caso, já afastado, acham que não existem provas suficientes desse estupro, ou que ela o mereceu, por dançar funk.

Uma boa notícia: um filme de super-herói com protagonista feminina está sendo lançado. Vem de uma longa saga que retrata os desafios de uma raça de mutantes no mundo humano e, pela primeira vez, a mutante em destaque é uma mulher. Só que o cartaz promocional principal do filme é um pouco diferente dos anteriores, que colocava rivais frente a frente, encarando-se em posição de igualdade. Decidiram mostrar essa personagem sendo enforcada por um mutante masculino gigante e forte.

Uma pastora de uma das igrejas mais expressivas no Brasil, ligada a políticos evangélicos que formam uma importante tendência no Congresso, apelidada de “bancada da Bíblia”, faz uma pregação direcionada às fiéis mulheres, que viraliza no Youtube. No vídeo, a pastora recomenda às fiéis fazerem jejum – não para elevarem seu pensamento além da necessidade física, para perderem peso mesmo. Porque a espiritualidade de uma mulher aparentemente se reduz à sua aparência.

Diante deste cenário, Eliane Catanhêde, mulher colunista de um dos principais jornais do país, publica texto intitulado “Nós, mulheres”, no qual pretende fazer uma autocrítica da atuação de suas poucas companheiras de gênero que conquistaram algum cargo relevante. Começa culpando a filha de Alberto Fujimori como grande articuladora do governo do pai, responsável por ter ele caído “em desgraça”.

O jornal para o qual escreve, como todos os outros, está dominado por denúncias seríssimas de corrupção contra homens do alto escalão do governo, que rifaram a nossa democracia na tentativa de se safarem da operação Lava Jato, entregando a cabeça da mencionada presidenta para aplacar os ânimos midiáticos e afastarem de si os holofotes, tudo comprovado por áudios vazados. Mas a culpa do fracasso do segundo governo Dilma não tem nada a ver com essa investida golpista, mas sim com sua postura de “gerentona”.

Embora reconheça os avanços que as mulheres conquistaram em termos de protagonismo político, Catanhêde termina concluindo que o maior desses avanços, a presidenta mencionada acima, foi um duplo estrago.

Termina com um prognóstico sombrio para o futuro das mulheres na política por conta de seus envolvimentos em corrupção. Não obstante corrupção não seja exclusividade delas, seja a regra num país dominado ainda pelos homens, que ocupam a maior parte dos cargos públicos e de gerência.

Envolver-se com isso nunca foi um problema tão sério para os homens. Inclusive, muitos condenados foram reeleitos ou seguem sendo grandes influências políticas, vide Collor e Maluf. Mas para as mulheres… Ah, isso é imperdoável.

A indignação seletiva de Catanhêde, com a contínua culpabilização das mulheres por erros dos homens, ao mesmo tempo em que ignora o papel desses homens nos erros delas, não tem outro nome além de machismo. Ao utilizar de sua condição de mulher, a colunista pretende se safar dessa acusação, mas o machismo não é privilégio deles – é uma construção social preconceituosa que prejudica a capacidade cognitiva de homens, mulheres e crianças.

O texto da colunista traz requintes de crueldade e sadismo quando compreendido na conjuntura de ameaça aos direitos civis das mulheres, conquistados com tanto de seus suores, que se expressa no afastamento da presidenta para a composição de um governo com ausência absoluta de alguém do “mundo feminino”.

A perseguição da mulher piorou na exata proporção do aumento da nossa participação na fatia de poder e se percebe em todos os âmbitos, como vimos nos episódios destacados acima: no governo, no judiciário, na arte, na cultura e na religião.  Até mesmo em uma singela coluna de um grande jornal.

Em resposta ao “Nós, mulheres”, nós, feministas, dizemos que sua coluna e seu erro, Eliane, não é culpa sua, mas do próprio machismo que se manifesta de maneira estrutural e estruturante em seu pensamento. Que estende a todas nós o destino de Eva – ser eternamente culpada pela queda de Adão. Diante de tanta perseguição, nada mais compreensível que tentasse se salvar, diferenciando-se das demais através de suposta autocrítica, fazendo o jogo do seu opressor para conquistar dele a simpatia.

Porém, gostaríamos de dizer também que existe uma alternativa à covardia: juntar-se a nós, em sororidade, para lutarmos juntas contra essa opressão.

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