Um dia uma amiga me contou que, quando dormia com o namorado, colocava o despertador para meia hora antes do que ele costumava acordar. Ela não suportava a ideia de que ele visse ela desgrenhada e com remelas. Como se o namorado não soubesse que ela é humana e baba dormindo, acorda despenteada ou não produz rímel nos cilios.

 

Na verdade talvez ele não saiba, mesmo. Muitos caras não sabem. Eles acham que mulheres são mais parecidas com as criaturas retocadas que vemos nas revistas do que com seres humanos. Por isso mesmo acreditam que “beleza real” é um negócio libertador. Afinal, “as mulheres são naturalmente bonitas” (ah, as mulheres, essa entidade).

E nós até poderíamos ser, se os padrões de beleza fossem feitos para pessoas reais.

beleza-realPele perfeita & cabelo sem frizz

Mas nesse ideal que se coloca como real não basta corpo sem gordura, pele sem poros, cabelo sem frizz, cílios longos, depilação em dia e peitos que não sofrem os efeitos da gravidade. É preciso não se preocupar com isso tudo, porque preocupação não é atraente, homens odeiam esperar mulheres “se arrumar” e adoram nos dizer que devemos levar a vida mais leves.

E esse tipo de coisa vai entrando na nossa cabeça de tal jeito que muitas de nós acabamos acreditando na velha lenda de que isso só acontece conosco. Claro, todas as outras mulheres do mundo “acordaram assim” e só nós passamos por esse tipo de conflito e busca e sofrimento.

Mas não, colegas, todas as mulheres do mundo são humanas. E eis mais um motivo para evitar a competição: em menor ou maior grau, todas passamos por essa busca irreal pela “beleza real”.

E como essas coisas foram entrando na nossa cabeça, também fomos aprendendo e criando truques para manter os homens nesse conto de fadas deles. Como se assumir que somos afetadas por uma sociedade que nos diz que só temos valor se somos bonitas fosse algo ruim e nos tornasse, mesmo, pessoas piores.

Mas viver uma vida de mentirinha não, isso não é inconveniente nenhum.

flawlessAcordei assim. Sem defeitos.

Não estou insinuando que parar de “poupar” os caras de saberem que somos humanas é fácil. Menos ainda que é diboinha se dar conta que esse negócio de beleza real não se sustenta sem, pelo menos, três tipos de cremes, drenagem linfática, dieta constante, depilação definitiva e muito selfie no contra-luz.

Mas eu, sinceramente, acho que parar de simular que somos mutantes e aceitar que ninguém vive alheio aos padrões de beleza alivia muito do peso de viver. Como bônus acabamos nos dando conta que não queremos nada com caras que esperam que sejamos estátuas, porque assumir nosso direito de ser humanamente imperfeitas é nos humanizar em muitos outros sentidos.

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