Eu morro de vergonha de dividir minha raça com gente que fala em supremacia branca e defende discurso de ódio. Mas acho igualmente terrível quem prefere não aceitar que, sim, ser branco é um privilégio.

Esses dias estava falando com um amigo sobre privilégio e ele disse que se sentia estranho ao chamar de privilégio o que deveria ser default, a maneira padrão como todos deveriam ser tratados e vistos. Porque sair na rua sem ter medo de sofrer violência apenas por quem tu é não deveria ser um privilégio. E eu concordo.

Mas é.

Essa semana um jovem loiro entrou em uma igreja histórica para os negros americanos e matou 9 pessoas. Por racismo, por ódio. Quando ele foi preso, os ativistas que eu sigo no Twitter não demoraram em notar a diferença de tratamento que o assassino recebeu.

assassinoAssassino branco ganha colete e escolta

Os exemplos poderiam vir de todos os lugares, mas o primeiro veio da semana anterior quando uma adolescente de 14 anos que, após organizar uma festa na piscina, sem ter feito nada ilegal, recebeu esse tratamento.

mckinney-texasAdolescente inocente negra ganha violência e humilhação

Com isso os ativistas não estavam dizendo que o correto era que todos fossem torturados pelo BOPE até a morte ou humilhados em uma festa. Mas reconhecendo que existe um privilégio e que ele está relacionado com a cor da nossa pele e o que ela representa historicamente, culturalmente.

E eu sei bem disso.

Sou gaúcha. Meu estado é o mesmo que tem, em seu hino, a frase: “povo que não tem virtudes acaba por ser escravo” e aquele onde intercambistas africanos são presos e humilhados pela PM apenas por serem negros.

Mas eu sou branca.

Então, durante muito tempo, presenciei bem menos cenas racistas que pessoas negando sua existência. E, se eu quisesse, poderia facilmente ter optado por acreditar nesse discurso que flexibiliza racismo e privilégio branco.

Mas, quando nos colocamos como feministas, saímos ao mundo para dizer que ser que quem somos não deveria ser desculpa para violência. E é nossa obrigação fazer isso pensando para além da nossa esfera privada, dos nosso probleminhas pessoais. E, ao fazermos isso, nos deparamos com uma imensidão de coisas que passam pelo mesmo filtro. Como disse a Maria Lacerda de Moura:

Em que consiste a emancipação feminina? De que serve o direito politico para meia dúzia de mulheres, se toda multidão feminina continua vitima de uma organização social de privilégios e castas?

Reconhecer o nosso privilégio branco é começar a faxina em casa. É fazer o que demandamos que os homens façam, ao reconhecer seu privilégio masculino. É tentar nos aliar com o lado que sabe por vivência que ideias como supremacia branca (e formas mais sutis de racismo, também) são brutais. E que, de tão idiotizadas que são, só não chegam a ser engraçadas porque delas deriva muita violência.

Eu não tenho orgulho branco. Na maior parte das vezes tenho é vergonha. Vergonha de quem acha que ser branco te torna melhor, que discurso de ódio é argumentação e vergonha de quem não tenta confrontar isso no que nos é possível porque, bom, privilégios são confortáveis.

É como disse Lupe Fiasco em carta aberta:

Querida Supremacia Branca

Primeiro de tudo, você não é tão superior assim. Historicamente temos que admitir que você adquiriu algumas posições de dominação. Essas posições foram ganhas, em grande maioria, pela força ou algum agente biológico como doenças que fizeram muito do teu trabalho sujo (…) Quero dizer, qualquer um pode usar a força contra populações desarmadas e qualquer um pode ter varíola (…) Não tem nada em ti biologica ou fisicamente que denote uma forma de superioridade inata. Falando nisso, também não tem nada psicologicamente, filosoficamente, cognitivamente, academicamente, socialmente, arquitetonicamente, culturalmente ou mesmo financeiramente que signifique uma posição superior à nenhum outro grupo. E, para ser diplomático, também não tem nada que denote inferioridade inata.

Então ter vergonha do que, historica e culturalmente, a raça branca representa não é diminuir-se. Pelo contrário, é aumentar-se. É se reconhecer como alguém que não quer isso. É saber que privilégios nunca vem sozinhos. Que se a PM não te aborda na rua, se as pessoas não te seguem no supermercado, se tu não é duplamente objetificada (por ser mulher e por ser negra), isso tudo acontece com outras mulheres e homens. E esses processos são parte de uma história de violência e exclusão que, em outro grau, afeta à todas nós mulheres.

privilégio

E é querer e buscar romper com isso. Se posicionar sobre isso. Parar de simular que não existe racismo e privilégio e achar que assim as coisas mudam. Estamos cansadas de saber que as coisas só mudam quando as confrontamos. E temos que começar a confrontar todos os privilégios.

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