Tem coisas que acontecem no mundo que me paralisam e eu só consigo pensar: UÉ. Não é nem que fique indignada ou ache engraçado, eu simplesmente não entendo, mesmo. Uma delas aconteceu ontem de noite em Campinas quando, segundo o Blog da Rose:

vereadores de Campinas aprovaram uma moção de protesto contra o Ministério da Educação pela inclusão na prova do Enem de um texto da filósofa francesa Simone de Beauvoir que tratava sobre a condição da mulher.

Essa notícia prometia, pois logo no primeiro parágrafo eu já estava

uéUééé

Sabe. Como assim ~moção de protesto~? Não se podem debater ideias? Que tipo de pessoa odeia debates teóricos? Só é possível adquirir conhecimento se ele já for exatamente o que penso? Sendo assim, não seria melhor trocar conhecimento por outra palavra, tipo, enaltecimento? Já pararam pra pensar que se eu, mulher, me recusasse a ler filósofos misóginos possivelmente só teria lido sobre feminismo a vida inteira?

Mas ok, a ignorância costuma ser arrogante e infinita, disso sabemos e já estamos até vacinadas contra. Só que ficou melhor/pior:

Mas ao confundirem a proposta de reflexão sobre violência contra a mulher e ideologia de gênero, os nobres vereadores acabaram por transformar a sessão num dos episódios mais deprimentes da bicentenária história da Câmara de Campinas.

não-pode-cNão pode c

Peraí, então os caras confundiram uma questão sobre gênero com um debate sobre violência? Não pode ser. Quem elegeu esses caras (diga-se, a imensa maioria no dia, segundo esse tuiteiro)?

halp-my-brain-splode Meu cérebro vai explodir. Não. Sério.

E quando eu achava que tinha visto tudo, a Rose citou as falas do vereadores. O autor da moção (Campos Filho, do DEM) disse:

A iniciativa é demoníaca. Foram buscar informações com uma filósofa lá em mil trocentos e pôco (sic) para impor a nós a discussão de gênero. Como pode alguém ser um homem de manhã e mulher à noite? Dizem que isso acontece porque as pessoas sentem uma pulsão (sic). Mas eu digo. É preciso tomar cuidado com essa pulsão, porque isso pode te levar para cadeia

não-apenas-não

Primeiro senti alívio: bom, pelo menos o autor está falando do tema da moção, né? Passado o choque inicial, porém, me dei conta do que estava sendo dito. Além da fala do colega ser mais próxima de um resumo da montagem de teatro experimental que vi de Orlando (da Woolf), uma vez, ela ainda diz que gênero pode levar para cadeia????

Is this real life? Esse senhor existe ou é apenas um delírio coletivo? E como que a gente faz, aqui, começamos prendendo todos os cidadãos do mundo?

Mas o horror prosseguiu quando o  Jaírson Canário (SD) falou:

Se Deus quisesse que não tivesse diferença entre homem e mulher, faria Adão com dois órgãos genitais

queQ

Então Cid Ferreira (PMDB) disse algo que depois foi repetido por outros colegas, como Prof. Alberto (PR):

Eu defendo o princípio que homem é homem; mulher é mulher e filho é filho. E que homem e mulher fazem filho; que também são homem e mulher

apenas-pare

Se fosse possível morte por constrangimento, não estaria aqui com vocês, hoje. Mas não é, infelizmente. Então eu só fico aliviada de não precisar mais apontar o óbvio, ele se auto-apontou nessa sucessão de vergonhas. Sim, se colocar contra o debate de uma violência epidêmica (são 179 relatos por dia. só relatos) porque ela ocorre com mulheres é misoginia. É dizer que mulheres são menos importantes. Esses senhores, do alto da sua ignorância e pretensão, deixaram isso bem claro ontem, em Campinas, no evento que ficou conhecido como “O dia que a dignidade morreu”.

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