Vida de escritor parece massa.

Você trabalha em casa, faz os seus horários, pode viajar, pode morar onde quiser.

Veja a vida dos escritores, tão glamurosa, tão livre, legal até mesmo na dureza, bebendo nos bares e se inspirando na boemia.

Porém a realidade da vida da escritora aqui é a seguinte: trabalho sentada no sofá enquanto penso nas meias pra enrolar, na roupa pra estender, enquanto as contas chegam por debaixo da porta e se empilham. Vou na cozinha e a louça está lá me olhando, puta da cara, pois não nos falamos há um tempão. Minha filha canta Demi Lovato bem alto pela sala só porque sabe que eu preciso de silêncio e tenho três textos pra entregar, sem contar meu livro novo. Os frilas dos trabalhos tão legais que eu faço sempre demoram pra entrar, atrasam, as pessoas não respondem os emails e “esquecem” de pagar depois de azucrinar com prazos. 98% das vezes que viajo é a trabalho, não que não seja divertido, mas não é sair chillin’ por aí.

O trabalho dos escritores sempre tem mais valor do que o meu, mesmo que a minha literatura tenha a mesma qualidade que a deles. Porque eu sou mulher. Porque quando eu encontro um editor na Flip, em Paraty (onde apenas 15% dos autores convidados eram mulheres) ele comenta que emagreci e estou bonita, não sobre meu livro novo ou meu financiamento coletivo. Porque quando te elogiam falam que você escreve “tão bem quanto um homem”. Porque as editoras querem colocar os livros “de mulher” todos na mesma categoria. Literatura feminina. Como se isso existisse. Como se fosse um subgênero. Não é, gente. Não é.

Não tem fim-de-semana, não tem férias, é um trabalho contínuo, 24/7, que se emaranha com a sua vida.

Isso chama: vida de escritora e mãe solo.

Meu pai, que é músico, comentou hoje que ele também ouvia a filha cantando Skid Row e RHCP pela casa e que ela (euzinha) achava que o foco era o marido da foca. Não tem nem comparação; vida de mãe solo é outra coisa. Sim, eu estava lá, mas tinha minha mãe, né? Minha mãe maravilhosa que é fotógrafa, desenha e faz iluminação de shows e ainda me criou pra ser a mulher que eu sou hoje, obviamente não sem abdicar de boa parte de si mesma para isso.

Não vejo nenhum amigo meu escritor com filhos reclamando que não consegue ter tempo pra escrever. Reclamam de grana, de espaço, de solidão, das editoras, dos jornais, das revistas, do preço da pinga, de um monte de coisas. Mas e o resto?

Não estou reclamando do que escolhi. Poderia escolher ter um empreguinho de novo, um crachá, dinheiro todo dia 20. Não quero e não vou viver assim pois me faz totalmente infeliz.

Mas não é fácil. Não é nada fácil. Não é fácil escrever, não é fácil ser mulher, não é fácil ser mãe. Ser tudo isso junto às vezes quase faz minha coluna se partir.

Quase, quase. Só quase.

Sigo firmona.

E depois perguntam por que eu bebo.

booze

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